Homenageado com uma sessão especial no Senado Federal neste mês em que completaria 95 anos, o ator e humorista Chico Anysio teve seu legado exaltado pela senadora Zenaide Maia (PSD-RN) em pronunciamento no plenário da Casa, nesta quarta-feira (15). A parlamentar celebrou a contribuição dos artistas nordestinos para a cultura brasileira.
“A inventividade de Chico legou ao país uma galeria inesquecível de tipos que encarnam as dores, incoerências e mazelas da vida nacional. Seus personagens foram canais de críticas mordazes ao poder político, à hipocrisia social, ao abandono do povo mais pobre, à superficialidade da fama, ao egoísmo e à vaidade do ser humano. Chico Anysio, nascido em Maranguape, no Ceará, correu mundo antes de nós e é um farol que nos ilumina”, declarou Zenaide.
Confira a íntegra do pronunciamento da senadora:
“Senhoras e senhores senadores, todos que nos acompanham nesta sessão do Senado Federal, meus cumprimentos!
Já disse o grande escritor Euclides da Cunha, autor do livro clássico “Os Sertões”: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte!”. Essa frase resume o espírito inquebrantável dos homens e das mulheres do Nordeste. E isso tem tudo a ver com um grande gênio das artes cênicas e do humor brasileiro: o nordestino Chico Anysio, que será homenageado, de forma muito justa, em uma sessão especial nesta Casa.
A inventividade de Chico legou ao país uma galeria inesquecível de tipos que encarnam as dores, incoerências e mazelas da vida nacional. Seus personagens foram canais de críticas mordazes ao poder político, à hipocrisia social, ao abandono do povo mais pobre, à superficialidade da fama, ao egoísmo e à vaidade do ser humano.
É por isso que uma velha máxima se reafirma atual: a arte imita a vida. Outro conhecido dito vale muito para esses dias tão conflagrados no mundo, e tão polarizados no Brasil: “faça humor, não faça guerra!”.
Como não lembrarmos de Justo Veríssimo, Professor Raimundo, Alberto Roberto, Painho, Coalhada, Bento Carneiro, Coronel Pantaleão, Azambuja, Nazareno e Bozó? Infelizmente, perpetuam-se em setores da política muitos Justos Veríssimos insensíveis à coletividade, querendo que “o pobre se exploda”.
O mestre da “Escolinha”, imortalizado com “E o salário, ó!”, deixa um alerta sempre atual sobre os baixos salários da classe trabalhadora. Bento Carneiro, o vampiro brasileiro, encarna uma denúncia contundente sobre práticas odiosas que assaltam os cofres públicos, sobre a corrupção que desvirtua o cuidado com a coisa pública.
Chico Anysio viveu de 1931 a 2012 e inscreveu sua arte na eternidade afetiva que nos une como povo, na identidade nacional. O grande mestre criou, com arguta capacidade de observação de figuras da vida real, mais de 200 personagens ao longo de sua vitoriosa carreira. Seus tipos, com bordões icônicos e traços únicos, definiram o humor na televisão brasileira.
Intelectualmente elaborado, incrivelmente capaz de se comunicar com as massas, Chico Anysio se conectou de forma profunda com os sentimentos humanos, com a simplicidade do nosso povo, com a vida real dos que sofrem. Seus recursos cênicos e de caracterização se firmaram na picardia para ironizar os desmandos da elite, as desigualdades sociais, as injustiças.
Chico Anysio nunca teve medo de dizer que o rei está nu. Ridicularizou os poderosos, questionou os costumes, provocou com propósito reflexivo. Deixa saudades, deixa orgulho, deixa exemplo.
Em entrevista à jornalista Marília Gabriela, Chico, numa reflexão de profunda sensibilidade humana e imensa sabedoria, assim definiu o poder e a função da piada, da provocação, do exercício livre da crítica:
Abro aspas:
“Uma piada é a tragédia de ontem, é a desgraça que passou, a infelicidade passada. É a demonstração alegre de um momento que estamos vivendo. A piada é a coisa que minimiza o drama. A piada é importante nos países que sofrem porque ela minimiza o drama das pessoas que vivem situações péssimas. Por isso, não há humoristas em países certos, não há humorista holandês, finlandês, norueguês, sueco… não há!”.
Fecho aspas.
Senhoras e senhores,
O poeta Ferreira Gullar, também nordestino, já disse que a arte existe porque a vida não basta. A grande escritora Clarice Lispector disse que temos direito ao grito – e entendo que o humor explicita esse direito à voz, ao protesto, à reivindicação da nossa existência e do nosso direito à dignidade.
A obra vasta de Chico Anysio ultrapassou o entretenimento e se inscreveu como marca nacional, do nosso jeito de ser e estar no mundo como cidadãos e cidadãs.
Viva o legado de Chico Anysio, que alçou o humor à estatura de um instrumento de salvação, de reconhecimento do outro, de humanidade! Rir também inspira, cura, educa e mobiliza.
Apesar de tudo que nos indigna, a vida vale a pena, e muito! Os mais de 200 personagens de Chico nos convidam, diariamente, a rir de nós mesmos, a recomeçar todo dia com um sorriso no rosto. Por trás do humor ácido e da crítica corrosiva desse mestre, há, sempre, uma declaração de amor ao povo brasileiro.
Muito obrigada!